Prometeu e Io

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Prometeu e Io

   Quando Prometeu ainda estava acorrentado, como castigo por ter dado o fogo aos homens, recebeu uma visita inesperada: uma criatura confusa e em fuga aproximou-se dele, depois de escalar desajeitadamente os rochedos e penhascos nos quais ele se encontrava preso. Parecia uma novilha, mas falava como uma jovem enlouquecida pelo sofrimento. Ao ver Prometeu, parou subtamente e exclamou:

"- A quem vejo ali, uma forma

Fustigada pela tempestade

E amarrada à rocha?

Cometeste algum crime?

É este o teu castigo?

Onde estarei eu?

Responde a esta pobre andarilha.

Muito, muito já tenho sofrido,

Meu vagar - longo vagar.

E, mesmo assim, em parte alguma

Pude livrar-me desses tormentos,

É uma jovem quem aqui te fala."

   Prometeu reconheceu-a. Conhecia sua história. Disse que sabia que ela era Io, filha de Ínaco. Que Zeus havia se apaixonado pela linda jovem que ela fora um dia.

   Io ficou curiosa em saber quem era aquele quem a tinha reconhecido, e ele lhe falou que foi o responsável por entregar o fogo aos mortais. Ela logo reconheceu que estava falando com Prometeu.

   Depois do reconhecimento mútuo, falaram à vontade. Ele contou-lhe , então, de que modo havia sido tratado por Zeus, e ela, por sua vez, disse-lhe ser esse mesmo deus a razão de ela, outrora uma princesa jovem e feliz, ter sido transformada em "um animal, uma besta-fera a morrer de fome, no eterno frenesi de uma corrida louca e desajeitada. Oh, vergonha...".

   Hera, a ciumenta mulher de Zeus, fora a causa direta de seus tormentos, mas portrás de tudo estava o próprio Zeus, que por ela se apaixonara e enviava

"Sempre ao meu quarto virginal

Visões da noite a persuadir-me

Com voz insidiosa e doces palavras:

Ó jovem e ditosa mulher,

Por que insistes em continuar virgem?

A seta do desejo trespassou Zeus,

Que por ti arde em chamas.

Contigo quer ele a fruição do amor.

Eram tais sonhos que me vinham noite após noite".

   Porém, ainda maior que o amor de Zeus era o medo dos ciúmes de Hera. Para quem era Pai dos Deuses e dos Homens, Zeus agiu com muito pouca sabedoria ao tentar esconder-se com Io sob uma nuvem tão espessa e negra que uma súbita noite pareceu expulsar da Terra toda a luz do dia. Hera sabia muito bem que devia haver alguma razão por trás de fato tão estranho, e de imediato suspeitou do marido. Quando procurou por todo Olimpo e não conseguiu encontrá-lo, desceu rapidamente para a terra e ordenou à nuvem que se desfizesse. Mas Zeus também não perdera tempo e, quando Hera o encontrou, viu-o ao lado de uma encantadora novilha branca. Ele jurou que a estava vendo pela primeira vez naquele momento, quando, recém-nascida, fugira da terra. Hera não acreditou em nenhuma palavra de tudo que ouviu. Disse que a novilha era muito bonita, e pediu a Zeus que a mesma lhe fosse dada de presente. Por mais que isso lhe custasse, ele percebeu de imediato que uma recusa poria tudo a descoberto. Mesmo relutando muito, deu Io para sua mulher, que sabia muito bem o que fazer para mantê-la afastada de Zeus.

   Entregou-a aos cuidados de Argos, que se ajustava à perfeição aos propósitos de Hera, uma vez que tinha  cem olhos. Com tal guardião, que podia dormir com alguns olhos olhos e ficar bem desperto com os restantes, Zeus parecia não ter saída. Assistiu à miséria de Io, transformada em animal e levada para longe de casa, e não se atreveu a ajudá-la. Finalmente, porém, procurou seu filho Hermes, o mensageiro do deuses, e disse-lhe que encontrasse uma maneira de matar Argos. Não havia deus mais esperto do Hermes. Desceu do Olimpo e, assim que pousou na terra, livrou-se de tudo que pudesse denunciar sua condição de deus,  e aproximou-se de Argos como se fosse um camponês tocando docemente sua flauta de bambu. Argos, fascinado pelo som, pediu-lhe que se aproximasse mais e sentasse ao seu lado. Nada seria melhor para os planos de Hermes, porém, nada aconteceu. Ele continuou tocando e conversou bastante, procurando ser o mais monótono e enfadonho possível. DOs cem olhos, alguns se fechavam, mas os demais continuavam abertos. Por fim, uma das histórias conseguiu o sucesso desejado. Mergulhado em sono profundo, cerrou todos os olhos. É claro que Hermes imediatamente o matou, mas Hera pegou os olhos e colocou-os na cauda do pavão, sua ave favorita.

   Parecia, então, que Io estava livre, mas não foi o que se passou. Mais uma vez Hera voltou para ela sua atenção: enviou-lhe um moscardo que a picava initerruptamente, atormentando-a até a loucura. Io descreveu um pouco seu sofrimento:

   "- Não deixa um só instante de me perseguir ao longo da praia. Não posso parar, seja para comer ou beber, e nem mesmo para dormir".

   Prometeu tentou reconfortá-la, mas suas palavras de consolo só podiam remeter a um futuro muito longínquo. O que de imediato a esperava eram perambulações ainda maiores, e por terras medonhas. Disse-lhe que a parte do mar que ela inicialmente percorrera em seu devaneio passaria a chamar-se, em sua homenagem, Mar Jônito, e o Bósforo, que significa "Passagem da Vaca", guardaria para sempre a recordação de quando ela passou por ali passou; mas que sua verdadeira consolação só se daria quando depois de muito perambular, ela chegasse finalmente ao Nilo, onde Zeus faria com que voltasse à forma humana primitiva. Dele teria um filho de nome Épafo, quando então passaria a viver sempre feliz e venerada. E disse também: "fica sabendo que, de tua raça, nascerá um ser glorioso no manejo do arco e de coração intrépido, ele virá libertar-me."

   O descendente distante de Io seria Héracles, o mais grandioso dos heróis. Só muito dificilemte os deuses conseguiriam superá-lo, e a ele Prometeu ficaria devendo sua liberdade.

 

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