A Odisseia

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A Odisséia

    Quando a vitoriosa Armada Grega fez-se ao mar depois da queda de Tróia, muitos capitães se defrontaram com dificuldades inesperadas que nada ficavam a dever aos sofrimentos que haviam infligido aos troianos. Atena e Posseidon tinham sido os maiores aliados dos gregos dentre todos os deuses, mas sua atitude mudara radicalmente depois da queda da cidade. Tornaram-se os mais ferozes inimigos. Enlouquecidos com a vitória na noite em que tomaram a cidade, os gregos se esqueceram por completo de seus deveres para com os deuses; sua viagem de regresso foi, então, marcada pelos mais terríveis castigos.

    Cassandra, uma das filhas de Príamo, era profetisa. No passado fora amada por Apolo, que lhe concedera o dom de predizer o futuro. Mais tarde, porém, o deus se voltou contra ela, pois Cassandra tinha repudiado o seu amor. Ainda que ele não pudesse retirar-lhe o dom da profecia - uma vez conferidos os favores divinos não podiam ser revogados - fez com que ele nada valesse: ninguém jamais acreditaria nela. Vezes sem conta Cassandra avisou os troianos do que ia acontecer, mas jamais lhe deram ouvidos. Chegou mesmo a preveni-los de que os gregos estavam escondidos dentro do cavalo, e suas palavras caíram no mais completo vazio. Estava destinada a sempre conhecer de antemão os desastres iminentes e não poder jamais evitá-los. Quando os gregos saquearam a cidade, ela foi encontrada no templo de Atena, ao lado da imagem da deusa, que lhe dera sua proteção. Encontrando-a, os gregos ousaram tratar Cassandra com violência. Ájax - não o grande Ájax, por certo, que já havia morrido, mas um chefe menor que tinha o mesmo nome - arrancou-a do altar e arrastou-a para fora do santuário. Nenhum grego protestou contra esse sacrilégio, e a ira de Atena foi imensa e terrível. Procurou Posseidon e contou-lhe sobre a afronta que tinha sofrido. "Quero que me ajudes a vingar-me", pediu-lhe. "Faz com que os gregos tenham um amargo regresso. Agita tuas águas com os mais tenebrosos turbilhões assim que eles partirem. Que os mortos se amontoem nas baías e entulhem as praias e os recifes."

    Posseidon concordou com o pedido de Atena. A essa altura, Tróia era um amontoado de cinzas, e ele foi capaz de pôr de lado o ódio que sentia pelos troianos. Durante a terrível tempestade que desabou sobre os gregos depois que partiram para a Grécia, Agamenon quase perdeu todos os seus navios; Menelau foi para o Egito, levado por ventos incontroláveis; e Ájax, morreu afogado. No auge da tempestade, seu navio foi despedaçado e afundou, mas ele ainda conseguiu nadar até a praia. Teria conseguido salvar-se se não tivesse gritado, em sua loucura, que era um daqueles que o mar jamais conseguiria afogar. Tamanha arrogância sempre despertava a ira dos deuses. Posseidon despedaçou a ponta da rocha à qual Ájax se agarrara, e ele então caiu e foi tragado pelas águas.

    Odisseu não perdeu a vida, mas, se não sofreu tanto quanto alguns dos gregos, teve por sua vez um sofrimento muito mais prolongado. Antes de voltar para casa, vagou perdido por dez anos. Quando finalmente chegou em casa, o filho que ali deixara já era um homem feito. Vinte anos haviam decorrido desde que Odisseu partira para Tróia.

    Em Ítaca, a ilha onde morava, as coisas tinham ido de mal a pior. A esta altura, todos já o davam por morto, com exceção de sua mulher, Penélope, e do filho Telêmaco. Quase haviam cedido ao desespero, mas recuperaram as esperanças. Todas as pessoas concluíram que Penélope havia ficado viúva, e que, portanto, podia e devia casar-se de novo.  De todas as ilhas vizinhas, e da própria Ítaca, um número desmedido de homens deslocou-se para a casa de Odisseu para cortejar Penélope, que, por sua vez, não queria saber de nenhum. A esperança de que o marido retornasse era muito remota, mas ela conseguia mantê-la acesa. Além do mais, ela detestava todos os seus pretendentes, e o mesmo acontecia com o filho Telêmaco. E tinham boas razões para tanta aversão - os homens que para ali afluíam aos bandos eram todos grosseirões, gananciosos e arrogantes. Passavam os dias sentados na grande sala da casa, devorando as provisões de Odisseu, matando-lhe os bois, carneiros e porcos, bebendo o vinho, queimando a lenha e berrando ordens aos criados da casa. Declararam que dali não arredariam pé enquanto Penélope não se decidisse casar com um deles. Tratavam Telêmaco com um desdenho zombeteiro, como se ele não passasse de um garoto ao qual homens como eles não devessem dar a menor atenção ou levar a sério. A situação era intolerável tanto para a mãe quanto para o filho, mas estavam ambos completamente indefesos: o que podiam fazer duas pessoas, uma delas uma mulher, contra aquele número de homens?

    De início, Penélope achou que conseguiria vencê-los pelo cansaço. Disse-lhes que só voltaria a casar-se depois que acabasse de tecer uma mortalha muito bela e apropriadamente trabalhada para o pai de Odisseu, o velho Laerte, para que já a tivesse pronta no dia de sua morte. Os pretendentes tiveram que ceder diante de tão piedosa intenção, e concordaram em esperar até que o trabalho estivesse pronto. Na verdade, porém, a mortalha nunca terminava, pois Penélope desfazia à noite o que tecera durante o dia. O estratagema. porém acabou sendo descoberto. Uma de suas criadas denunciou o truque aos pretendentes, e eles flagraram-na no momento em que desmanchava a mortalha. É evidente que, depois disso, tornaram-se mais insistentes e incontroláveis do que nunca. Assim estavam as coisas quando chegava ao fim o décimo ano das perambulações do Odisseu.

    Devido aos maus-tratos infligidos a Cassandra quando de sua prisão, Atena estava indiscriminadamente furiosa com os gregos; antes disso, porém, durante a Guerra de Tróia, tinham favorecido muito Odisseu. Deleitava-se com seu espírito ardiloso, sua sagacidade e esperteza, e estava sempre disposta a ajudá-lo. Depois da queda de Tróia, passou a incluí-lo entre aqueles contra os quais voltava a sua ira, e, logo que partiu, ele também foi surpreendido pela tempestade, perdendo tão completamente o rumo que não mais conseguiu encontrá-lo. Anos após ano, ficou ao sabor dos ventos e das mais perigosas aventuras.

    Dez anos, porém, é tempo demais para que perdurem os sentimentos de hostilidade. Os deuses, com exceção de Posseidon, estavam agora com pena de Odisseu e Atena era a que mais se compadecia dele. Tudo o que sentia por ele no passado estava de volta, e ela estava disposta a reconduzi-lo ao lar, pondo um fim aos seus sofrimentos. Com isso em mente, encantou-se um dia em que percebeu que Posseidon estava ausente da reunião do Olimpo. Ele tinha ido visitar os etíopes, que viviam na outra margem do Oceano, no Sul, e era certo que pretendia demorar-se ali, banqueteando-se e festejando alegremente com os habitantes do local. De imediato, Atena apresentou aos demais o triste caso de Odisseu. No momento, disse-lhes ela, ele estava praticamente sob prisão na ilha governada pela ninfa Calipso, que o amava e tinha planos de jamais deixá-lo partir. Em tudo que lhe dizia respeito, com exceção de sua liberdade, ela o cumulava de gentilezas e amabilidades. Odisseu, porém, sentia-se o mais miserável dos homens. Morria de saudades de sua pátria, da mulher e do filho. Passava os dias na praia, esquadrinhando o horizonte à procura de um navio que nunca chegava e amargando um enorme desejo de ver até mesmo a fumaça a evolar-se da lareira de sua casa.

    Os olímpicos comoveram-se com suas palavras. Sentiram que deviam ter sido mais generosos com Odisseu, e Zeus então falou em nome de todos: era preciso que não medissem esforços para encontrarem alguma forma de fazê-lo regressar. Se todos estivessem de acordo, Posseidon sozinho não teria forças para opôr-se a sua decisão. De sua parte, disse Zeus, ele próprio mandaria Hermes dizer a Calipso que devia libertar Odisseu para sua viagem de volta. Satisfeita, Atena deixou o Olimpo e foi para Ítaca com todos seus planos já muito bem tramados.

    Ela gostava imensamente de Telêmaco, não apenas por ser filho de seu amado Odisseu, mas também porque ele era um jovem sóbrio, discreto, firme e prudente, além de digno da mais absoluta confiança. Imaginou que faria bem a Telêmaco partir para uma viagem enquanto Odisseu estivesse voltando para casa, em vez de ficar eternamente alo a observar, furioso, o comportamento degradante dos pretendentes à mão de sua mãe. Sua reputação junto aos homens também subiria muito se dissesse que partiria em busca de notícia do pai. Passariam a vê-lo como ele era de fato, isto é, como um homem piedoso e cheio dos mais admiráveis sentimentos filiais. Para pôr em execução o seu plano, Atena disfarçou-se de homem do mar e partiu para a casa de Odisseu. Quando Telêmaco viu aquele homem nas imediações da casa, ficou profundamente envergonhado por ver que um hóspede não fora imediatamente bem recebido. Apressou-se a cumprimentá-lo, tomou-lhe a lança e deu-lhe um lugar de honra à mesa. Os criados também se apressaram a brindá-lo com a hospitalidade da grande casa, servindo-o fartamente de alimento e vinho. Depois disso, os dois conversaram. Atena começou por perguntar-lhe se, por acaso, tinha ido parar em alguma grande farra ou bebedeira. Não queria ofendê-lo, mas um homem de boas maneiras poderia ser desculpado por mostrar-se chocado com o modo como as demais pessoas estavam se comportando ali. Então Telêmaco contou-lhe tudo: o medo que ele e a mão tinham de que Odisseu estivesse morto; como todos aqueles homens tinham vindo de tão longe e de perto para cortejar Penélope; e o fato de que ela não tinha aceito nenhum deles, ainda que não pudesse manter indefinidamente sua recusa. Contou-lhe também que aqueles homens estavam arruinando-lhes a casa, comendo tudo o que tinha e fazendo uma devastação geral. Atena ficou profundamente indignada, e disse que a situação era de fato muito vergonhosa. Se Odisseu algum dia voltasse para casa, aqueles homens perversos seriam sumariamente expulsos e teriam um triste fim. Depois, insistiu com Telêmaco para que tentasse descobrir onde estava o pai, dizendo que procurasse Nestor e Menelau, os homens mais indicados para informá-lo do paradeiro de Odisseu. Então partiu, deixando o jovem cheio de entusiasmo e com uma decisão já tomada, tendo superado por completo toda a incerteza e hesitação. Telêmaco sentiu essa transformação com grande surpresa, e deixou-se tomar pela crença de que tinha sido visitado por uma divindade.

    No dia seguinte convocou todos para uma assembléia, quando então deu-lhes a conhecer quais eram os seus planos e pediu-lhes um navio sólido e vinte remadores. A única resposta que teve veio em forma de zombarias e insultos. Os pretendentes ordenaram-lhe que não arredasse pé de casa e esperasse ali mesmo por quaisquer notícias. Cuidaram de impedir, pessoalmente, que ele fizesse tal viagem. Depois, com ares de superioridade, voltaram gargalhando para o palácio de Odisseu. Desesperado, Telêmaco caminhou até a praia, e fez ali uma oração a Atena. A deusa ouviu-lhe a prece e apareceu na forma de Mentor, o homem que, dentre todos os habitantes de Ítaca, era aquele em quem Telêmaco depositava mais confiança. Mentor o reconfortou e incentivou, promentendo-lhe que um navio grande e veloz  seria imediatamente colocado a sua disposição, e que ele próprio acompanharia Telêmaco na viagem. É evidente que o jovem não fazia idéia de quem, na verdade, estava a conversar com ele, mas a ajuda bastou para dar-lhe novas forças e desafiar os pretendentes; correu então para casa, e ali pôs-se a fazer todos os preparativos para a viagem. Então, quando todos em casa dormiam, foi para o navio onde Mentor (Atena) o esperava. Embarcaram e fizeram-se ao mar em busca da casa do velho Nestor, que vivia em Pilos.

    Foram encontrá-lo na praia, onde, na companhia dos filhos, oferecia um sacrifício a Posseidon. Nestor acolheu-os com grande hospitalidade, mas tinha muito pouco a ajudar no que dizia respeito ao motivo que os levara até ali. Nada sabia de Odisseu; tinham partido separadamente de Tróia, e desde então ele não mais recebera notícia alguma do herói. Em sua opinião, Menelau era o homem mais indicado para dar alguma notícia, pois tinha viajado para o Egito antes de retornar para a Grécia. Se Telêmaco assim o desejasse, mandaria um de seus filhos acompanhá-los de carro a Esparta. O filho conhecia o caminho, e a viagem por terra seria muito mais rápida do que pelo mar. Muito grato, Telêmaco aceitou a oferta e, deixando Mentor tomando conta do navio, partiu no dia seguinte com o filho de Nestor para o palácio de Menelau.

    Só foram parar em Esparta, e a casa com que se depararam era a mais grandiosa que até então tinham visto. Foram recebidos como príncipes. As servas levaram-nos aos quartos de banho, onde os lavaram em banheiras de prata e esfregaram-lhes os corpos com os óleos mais perfumados. Depois vestiram-nos com túnicas magníficas, envolvendo-os em seguida em mantos da mais nela púrpura, e por fim conduziram-nos ao salão de banquete. Assim que entraram, uma serva trouxe-lhes água em um cântaro de ouro; depois de banhar-lhes os dedos, a água escorria para um vaso de prata. Uma mesa reluzente foi preparada ao lado deles, com as mais finas iguarias e um copo de ouro cheio de vinho para cada um. Menelau deu-lhes as boas vindas e pediu-lhes que comessem. Os jovens estavam felizes, mas também um pouco constrangidos com toda aquela magnificência. Telêmaco sussurrou ao amigo, bem baixinho para que ninguém o ouvisse: "O salão de Zeus, no Olimpo, deve ser igual a este. É de tirar o fôlego!" Instantes depois, porém, já deixara de lado a timidez, pois Menelau começava a falar de Odisseu - de sua grandeza e de seus grandes sofrimentos. À medida que foi ouvindo, os olhos do jovem encheram-se de lágrimas, e teve de esconder o rosto com seu manto para que os demais não percebessem a agitação que tomara conta de seu espírito. Menelau, porém, notou a emoção do jovem e deu-se conta de quem se tratava.

   Neste momento, aconteceu algo que desviou a atenção de todos: a bela Helena descia de seus perfumados aposentos, atendida pelo seu próprio séqüito de aias: uma carregava-lhe a cadeira, outra um macio tapete para os pés, e uma terceira trazia à mãos o cesto de prata cheio de lã violeta. Devido à semelhança com o pai, ela reconheceu Telêmaco e chamou-o pelo nome. O filho de Nestor disse-lhe que, de fato, seu amigo era filho de Odisseu, e que tinha vindo em busca de auxílio e conselhos. Telêmaco então falou, e contou-lhes sobre a terrível situação reinante em sua casa, e da qual só podiam livrar-se com o regresso do pai. Perguntou a Menelau se este tinha notícias de Odisseu, fossem boas ou más.

  "A história é muito longa", respondeu Menelau, "mas realmente tive notícias dele, e elas me chegaram de um modo muito estranho quando eu me encontrava no Egito. Devido ao mau tempo, fiquei muitos dias retido em Faros, uma ilha daquele país. Nossas provisões já começavam a escassear, e, ao ver meu desespero, uma deusa do mar teve pena de mim. Disse-me que seu pai, o deus marinho Proteu, podia ensinar-me a sair daquela ilha odiosa e chegar a salvo em meu país. mas só o faria se eu conseguisse convencê-lo a tanto. Para isso, era preciso que eu o agarrasse e mantivesse preso até que ele me contasse tudo o que eu desejava saber. A deusa do mar tinha um plano excelente: todos os dias, Proteu surgia do mar com um grupo de focas, e ficava com elas na areia da praia, sempre no mesmo lugar. Eu e meus homens cavamos ali quatro buracos e, coberto por peles de foca que a deusa nos fornecera, nos escondemos cada um em um buraco. Quando o velho deus estava reclinado a poucos passos de mim, foi muito fácil saltar fora de nossos esconderijos e agarrá-lo. O grande problema, porém, era mantê-lo preso, pois ele tinha o poder de mudar de forma à vontade; transformou-se sucessivamente em leão, dragão e muitos outros animais, chegando a assumir a forma de uma árvore muito alta e copada. Mas conseguimos segurá-lo com firmeza, e por fim ele desistiu e contou-me tudo o que queria saber. Com relação ao teu pai, disse-me que ele estava numa ilha, e que ali, retido por uma ninfa chamada Calipso, vivia sonhando em retornar um dia a sua pátria. São essas as únicas coisas que fiquei sabendo sobre Odisseu desde que, há dez anos, saímos de Tróia". Quando terminou de falar, fez-se um profundo silêncio. Todos se lembraram de Tróia e de tudo o que desde então se passara, e choraram - Telêmaco pelo pai; o filho de Nestor pelo irmão, o veloz Antíloco, morto diante das muralhas de Tróia; Menelau por tantos guerreiros e amigos que haviam tombado nos campos de Tróia, e Helena... mas quem podia dizer ai certo quais as lembranças faziam Helena chorar? Estaria ela pensando em Páris enquanto ali estava, sentada no magnífico salão de seu marido?

    Os jovens pernoitaram em Esparta. Helena ordenou às criadas que preparassem suas camas no pórtico de entrada, e que fossem macias e quentes, com cobertores de uma espessa púrpura sobre os quais deveriam colocar mantas macias e aconchegantes e cobertores de lã. Conduzindo uma tocha, um criado mostrou-lhes o caminho, e ali dormiram confortavelmente até o amanhecer.

    Enquanto isso, Hermes tinha ido levar as ordens de Zeus a Calipso. Amarrou as sandálias de ouro que o tornavam tão veloz quanto o vento que se desloca por sobre o mar e a terra. Pegou o bastão com o qual encantava as pessoas até fazê-las dormir, e, lançando-se aos ares, voou rente às ondas, quase a tocar-lhe as cristas. Finalmente chegou à encantadora ilha que se transformara, para Odisseu, em odiosa prisão. A ninfa estava sozinha, e seu amado herói vagava, mais uma vez, pelas areias da praia. Vertia lágrimas amargas enquanto olhava para o horizonte insondável. Calipso não gostou das ordens enviadas por Zeus. Salvara a vida de Odisseu quando seu navio naufragara nos arredores da ilha, disse ela a Hermes, e, ainda que todos devessem a mais rigorosa obediência a Zeus, não era justo o que ele estava a pedir-lhe. Além disso, de que modo poderia ela organizar uma viagem de volta? Não tinha navios nem tripulações sob seu comando. Hermes, porém, achava que esses problemas não lhe diziam respeito. "Cuida apenas para não incorreres na ira de Zeus", disse-lhe, partindo despreocupadamente em seguida.

    Muito triste, Calipso começou a fazer os preparativos necessários. Informou Odisseu do que se passava, mas a princípio ele pensou que ela deveria estar preparando-lhe algum detestável ardil - afogá-lo, provavelmente. Por fim deixou-se convencer, pois percebeu que ela realmente pretendia ajudá-lo a construir uma jangada extremamente sólida e colocar nela todas as coisas de que ele necessitaria para sua viagem de volta. Nenhum homem jamais trabalhou com tanta alegria como Odisseu na construção da jangada. A madeira utilizada veio de vinte grandes árvores, todas secas o suficiente para que a embarcação flutuasse bem. Calipso encheu-a de alimento e bebidas em abundância, sem esquecer-se também das guloseimas que Odisseu mais apreciava. Cinco dias depois da visita de Hermes, o herói fez-se ao mar com os ventos favoráveis e águas calmas.

    Durante dezessete dias, viajou sem que o tempo nada alterasse, mantendo-se firme em seu rumo e não permitindo que o cansaço o levasse a adormecer. No décimo oitavo dia, avistou ao longe o pico envolto em nuvens de uma montanha. Achou, então, que estava a salvo.

    Naquele exato instante, porém, Posseidon (que voltava da Etiópia) avistou-o, e percebeu de imediato o que os deuses haviam tramado. "Ainda assim", disse de si para si, "acho que posso fazer com que ele sofra muito antes de alcançar a terra firme". Com esses pensamentos, convocou os ventos mais violentos e fez com que eles transformassem em trevas o mar e a terra com suas tempestades. O Vento Leste lutava com o Vento Sul, e o terrível Vento Oeste se digladiava com o do Norte. As ondas erguiam-se a altura descomunais. Odisseu viu a morte diante de si. "Oh, felizes os homens que tombaram gloriosamente nos campos de Tróia!", pensou. "Quanto a mim, estou condenado a esta morte desprezível!" O fim parecia mesmo iminente. A jangada era lançada em todas as direções, como se fosse um raminho seco a rolar pelos campos em um dia de outono.

    Contou, porém, com o auxílio de uma deusa bondosa que se encontrava nas proximidades: Ino, a dos tornozelos delgados, que fora outrora uma princesa tebana. Com pena dele, emergiu ligeiramente das águas e, como se fosse uma gaivota, disse-lhe que a única firma de salvar-se era abandonar a jangada e nadar até a praia. Deu-lhe o seu véu, que o manteria a salvo de qualquer perigo enquanto estivesse no mar. Em seguida, desapareceu em meio às ondas.

    Odisseu teria que seguir o conselho mesmo que não o tivesse aprovado. Posseidon enviou-lhe um vagalhão dos vagalhões, um verdadeiro terror do mar que despedaçou a jangada assim como o vento forte espalhara um monte de palha seca. Odisseu foi então na turbulência das águas, mas, ainda que não o soubesse, o pior já havia passado. Posseidon deu-se por satisfeito e partiu alegremente, já planejando uma outra tempestade em algum outro lugar. Atena, livre para fazer o que quisesse, acalmou rapidamente as ondas. Mesmo assim, Odisseu precisou nadar dois dias e duas noites antes de alcançar a terra firme e sentir-se finalmente salvo. Quando se livrou da rebentação das ondas, estava exausto, faminto e nu. Era noite e não se via nada, nem uma casa nem um ser vivo. Odisseu, porém, não era apenas um herói, mas também um homem cheio de recursos. Encontrou um lugar onde havia árvores tão espessas e rentes ao chão que nenhuma chuva poderia ali penetrar. Por baixo havia montes de folhas secas, suficientes para cobrir muitos homens. Afastando uma parte delas, deitou-se e colocou as folhas sobre ele, como se fossem um aconchegante cobertor. Aí então, quente, tranqüilo e com os perfumes da terra a embalar-lhe o sono, pôde finalmente adormecer.

    É evidente que não fazia a menor idéia do lugar onde se encontrava, mas Atena já cuidara disso também. Odisseu estava no país dos Feácios, um povo muito simpático que contava, entre seus habitantes, com extraordinários homens para o mar. Seu rei, Alcínoo, era um homem bondoso e sensível; como sabia que sua mulher, Arete, era muito mais sábia do que ele, nunca deixava de ouvi-la antes de tomar qualquer decisão importante. Tinham uma filha muito bela e solteira.

    Na manhã seguinte, Nausícaa - pois era esse o nome da jovem - nem imaginava que iria ser a principal responsável pelo salvamento de um herói. Assim que acordou, preocupo-se apenas com a lavagem as roupas. Apesar de princesa, esses trabalhos ficavam a seu cargo, pois na época esperava-se que as mulheres bem nascidas também contribuíssem com os trabalhos doméstico. Naquele tempo, lavar as roupas era uma das atividades mais agradáveis. Nausícaa ordenou às servas que preparassem um carro puxado por mulas bem rápidas, e que nele fosse colocada toda a roupa suja. A mãe preparou-lhe uma cesta repleta de comidas e bebidas, e deu-lhe também um frasco de ouro cheio de um óleo perfumado que poderia usar caso resolvesse banhar-se com suas criadas. Então partiram, com Nausícaa à frente do cortejo. Foram exatamente para o lugar onde Odisseu tinha ido parar. Ali, desembocava no mar um rio muito bonito que formava lagos deliciosos, de uma água clara e borbulhante. As jovens colocavam as roupas na água e dançavam sobre elas até que saísse toda a sujeira. Os pequenos lagos eram frescos e protegidos pelas sombras de muitas árvores; o trabalho era agradável. Depois, estendiam a roupa e punham-na para secar sobre as areias da praia que o mar já havia antes levado.

    Feito isso, ficavam com o tempo livre para suas diversões. Banhavam-se e untavam os corpos com os óleos perfumados; depois almoçavam e brincavam com uma bola que jogavam umas às outras, não parando nunca de dançar. Finalmente, o pôr-do-sol avisava-as de que mais um dia delicioso havia chegado ao fim. Recolheram as roupas, emparelharam as mulas e já estavam quase partindo quando viram um homem nu e de aspecto selvagem que saía do mato. Odisseu tinha acordado ao ouvir as vozes das jovens. Aterrorizadas, todas fugiram, mas Nausícaa ficou e o encarou sem receio. Ele então lhe falou, e o fez com toda a capacidade de persuasão que suas palavras lhe permitiam. "Sou um suplicante que se prosta a vossos pés, ó rainha!", disse ele. "Não sei dizer, porém, se és mortal ou divina, pois jamais vi alguém assim. És uma visão maravilhosa, e peço-te que concedas ta graça a este suplicante, um náufrago miserável, sem amigos e indefeso, até mesmo sem um único trapo que lhe cubra o corpo".

    Nausícaa respondeu-lhe amavelmente. Explicou-lhe onde se encontrava, e disse que os habitantes daquela região costumavam acolher muito bem todos os viajantes que por ali passava em má situação. O rei, seu pai, recebê-lo-ia com grande cordialidade. Depois, chamou as jovens assustadas e ordenou-lhes que dessem os óleos ao estranho, para que ele também pudesse banhar-se, e que também arranjassem para ele um manto e uma túnica. Esperaram até que ele se banhasse e vestisse, e depois foram todos para a cidade. Antes que chegassem à casa de Nausícaa, porém, a recatada jovem pediu a Odisseu que descesse do carro, pois achava melhor que ela e as criadas prosseguissem sozinhas. "As pessoas têm uma língua desnaturada", disse ela, "e falariam todo tipo de coisas se me vissem na companhia de um homem assim tão belo. Além disso, não terás muita dificuldade para encontrar a casa de meu pai, que é a mais bela e grandiosa de todas. Entra sem receio e vai diretamente ao encontro de minha mãe, que estará fiando ao lado da lareira. Meu pai fará tudo o que for determinado por ela."

    Odisseu concordou de imediato. Admirava o bom senso de Nausícaa, e fez tudo exatamente como ela lhe pedira. Ao entrar em casa, foi direto à lareira e curvou-se diante da rainha, colocando-lhe as mãos sobre os joelhos e pedindo-lhe que o ajudasse. O rei sem hesitar levantou-o e pediu-lhe que se sentasse à mesa para comer e beber à vontade. Fosse que fosse, e morasse onde morasse, podia estar certo de que lhe arrumaria um navio que o levasse até sua pátria. Já era hora de dormir, mas na manhã seguinte poderia dizer-lhes como se chamava e de que modo viera parar ali. E então dormiram a noite toda. Odisseu teve um sono magnífico, pois a cama que lhe ofereceram era a mais quente e macia em que repousava desde que tinha deixado a ilha de Calipso.

    No dia seguinte, diante de todos os chefes feácios, Odisseu contou a história de seus dez anos de perambulações. Começou com a partida de Tróia e a tempestade que caíra sobre a Armada. Ele e seus navios foram arrastados, à deriva, durante nove dias. No décimo, foram para no país dos Lotófagos, e ali atracaram os navios. Porém, por mais exaustos e necessitados de descanso que estivessem, tiveram de partir no mesmo dia. Os habitantes do lugar receberam-nos muito bem e ofereceram-lhe as plantas que costumavam comer, mas os que as experimentaram perderam o desejo de retornar à pátria. Só queriam ficar morando ali entre o Lotógafos, e de suas mentes apagaram-lhe todas as recordações do que até então se tinha passado com eles. Choravam muito, tão grande era o seu desejo de ficar para sempre naquela terra, comendo aquelas flores que tinham o sabor do mel. 

    A aventura seguinte teve por personagem principal o Ciclope Polifemo. Todas as mo

nstruosas formas de vida que foram inicialmente criadas, as criaturas de cem braços, os Gigantes e os outros foram banidas de uma vez por todas da Terra depois de terem sido dominadas, com a única exceção dos Ciclopes. Estes puderam voltar, e por fim se tornaram os favoritos de Zeus. Eram artesãos magníficos, e de suas forjas saíam os raios do deus. De início havia apenas três, mas posteriormente surgiram muitos outros. Zeus os colocou em uma terra auspiciosa, onde as vinhas e as searas não precisavam ser plantadas ou semeadas, e mesmo assim tinha uma fértil e permanente produção de frutos. Tinham grandes rebanhos de ovelhas e cabras, e levavam uma vida tranqüila. Contudo, sua ferocidade e seu temperamento selvagem em nada diminuíram. Não tinham leis nem tribunais, e cada um fazia o que achava melhor. Não era uma terra aconselhável para os estrangeiros.

    Muito depois de Prometeu ter sido punido, quando os descendentes dos homens que ele auxiliara tinham se tornado civilizados e aprendido a construir navios que navegavam por todos os mares. O barco de Odisseu encalhou justamente nessas terras.

    Perto do local onde sua tripulação amarrara o  navio havia uma caverna que dava para o mar, e era imensa. Parecia habitada, e tinha a entrada fortemente vedada. Com doze de seus homens, Odisseu começou a explorá-la. Precisavam de alimentos, e ele então levou consigo um odre cheio de um vinho forte e envelhecido, com a intenção de dá-lo de presente a quem ali vivesse e se mostrasse hospitaleiro. O portão não estava fechado, e foram entrando pela caverna. Não havia ninguém ali, mas tudo levava a crer que se tratava da morada de uma pessoa muito abastada. Dos dois lados da caverna viam-se muitos cercados para animais, cheios de cordeiros e cabritos, além das armações repletas de queijos e caçambas transbordantes de leite. Eram coisas por demais deliciosas para aqueles marinheiros cansados, que comeram e beberam enquanto esperavam que chegasse o dono da casa.

    Foi então que surgiu uma criatura medonha e imensa, tão alta quanto o maior dos despenhadeiros. Conduzindo seu rebanho, entrou e fechou a entrada da caverna com uma pesadíssima laje. Ao inspecionar o local e deparar-se com os intrusos, gritou, com voz terrível e tonitruante: "Quem sois vós, que sem serdes convidados ousais entrar na cada de Polifemo? Comerciantes ou piratas rapinantes?" Todos se apavoraram ao vê-lo e ouvi-lo, mas Odisseu tratou de responder-lhe, e o fez com firmeza: "Somos guerreiros que naufragaram em sues regressos de Tróia, e vossos suplicantes sob a proteção de Zeus, o  deus dos suplicantes". Polifemo, porém, vociferou que a ele pouco importava Zeus. Era maior que qualquer deus, e não se intimidava diante de nenhum deles. E, dizendo isso, esticou os braços poderosos e agarrou, com as mãos descomunais, dois homens que, no mesmo instante, tiveram suas cabeças esmagadas contra o chão. Lentamente, banqueteou-se com eles até o último pedaço; em seguida, satisfeito, refestelou-se no chão e adormeceu. Estava a salvo de qualquer ataque. Era o único capaz de girar a gigantesca pedra da entrada, e mesmo que os homens horrorizados tivessem conseguido reunir forças e coragem suficientes para matá-lo, ficariam aprisionados ali para sempre.

    Nessa noite longa e terrível, Odisseu pensou muito na coisa terrível que acontecera, e que voltaria a acontecer a todos se ele não conseguisse arquitetar algum plano de fuga. Mas, quando o dia já tinha raiado e os movimentos do rebanho diante da porta de entrada já haviam acordado o Ciclope, nenhuma idéia ainda lhe tinha ocorrido. Teve de presenciar a morte de dois outros homens de seu grupo, pois, a exemplo do que acontecera na ceia da noite anterior, Polifemo quis carne humana para o seu café da manhã. Em seguida, conduziu o rebanho para fora, afastando a grande pedra da porta e recolocando-a em seu lugar com a mesma facilidade com que um homem abre e fecha a tampa de sua aljava. Preso na caverna ao longo daquele dia, Odisseu não parou de pensar. Quatro de seus homens tinham tido uma morte hedionda. Teriam todos o mesmo destino terrível. Por fim, um plano formou-se em sua mente. Uma enorme viga ficava perto dos cercados para os animais, tão grossa e comprida quanto o mastro de um navio de vinte remos. Cortou-lhe um pedaço de bom tamanho, e depois, auxiliado por seus companheiros, aguçou-o e endureceu-lhe a ponta, girando-o muitas vezes na fogueira. A peça já estava pronta e escondida quando o Ciclope retornou. Seguiu-se o mesmo festim tenebroso do dia anterior. Assim que tudo terminou, Odisseu encheu uma taça com o vinho que pediu, até que, completamente embriagado, caiu em sono profundo. Odisseu e seus homens foram então buscar a grande estaca, e aqueceram-lhe a ponta até que a mesma ficasse incandescente. Com uma força que lhes foi atribuída por um poder mais alto, foram tomados por uma coragem enlouquecida e cravaram o ferrão de fogo no olho do Ciclope. Com um grito terrível, o monstro ergueu-se e arrancou de um só golpe a ponta que o enlouquecia de dor. Começou, então, a correr de um lado para o outro, tentando agarrar os que o haviam submetido a tal tormento. Mas foram inúteis todas as suas investidas; estava definitivamente cego, e nem mesmo conseguia aproximar-se dos homens.

    Por fim, afastou a pedra que fechava a entrada e sentou-se ali, estendendo os braços em sentido transversal, achando que, desse modo, conseguiria agarrá-los quando tentassem fugir do interior da caverna. Em seus planos, porém, Odisseu já havia pensado nisso também. Ordenou que cada homem escolhesse três carneiros de lã bem espessa, e que, com tiras fortes e maleáveis de casca de árvore, os animais fossem ligados entre si. Em seguida, esperariam que amanhecesse, quando então o rebanho seria levado para a pastagem. Finalmente o dia raiou e, à medida que os animais iam saindo pela porta da caverna, Polifemo os apalpava para verificar se não estavam levando algum homem em seu dorso. Não lhe ocorreu, porém, apalpar a barriga dos carneiros, e era exatamente ali que os homens estava, escondidos sob o carneiro do meio e agarrados à espessa lã dos animais. Assim que se viram fora daquele terrível lugar, foram para o chão e, a toda velocidade dirigiram-se para bordo do navio e zarparam. Odisseu, porém, estava por demais furioso para manter-se em silêncio, o que sem dúvida seria mais prudente no momento. Lançou um grito poderoso que, por sobre as águas, chegou com toda força aos ouvidos do gigante cego diante da entrada da caverna: "Com que então, Ciclope, não tiveste força suficiente para comer todos aqueles homens insignificantes? Está aí o merecido castigo pelo tratamento que dispensaste aos hóspedes de tua casa."

    Estas palavras levaram Polifemo a um acesso de fúria. Levantou-se de um salto, arrancou um enorme rochedo da montanha e lançou-o na direção do navio, que por um triz não teve a proa esmagada. Mesmo assim, os movimentos da água fizeram com que a embarcação retrocedesse para a costa, mas a tripulação, colocando toda sua força nos remos, conseguiu fazê-la avançar novamente para o mar. Quando Odisseu viu que já se encontravam a uma distância segura, gritou mais uma vez, agora com todo sarcasmo: "Ouve bem, Ciclope, quem te cegou foi Odisseu, o destruidor de cidades, e é o que deves dizer a todos os que perguntarem pelo teu olho". A essa altura, porém, já estavam muito longe da costa, e o gigante nada podia fazer. Ali ficou, cego e sentado na praia.

    Depois de deixarem a ilha do Ciclope, foram para o país dos Ventos, governado pelo rei Éolo. Como Zeus o fizera guardador dos Ventos, ele tinha o poder de acalmá-lo ou enfurecê-los à vontade. Éolo recebeu-os muito bem, e quando partiram deu de presente a Odisseu um saco de couro no qual colocara todos os ventos tempestuosos. Estava tão firmemente amarrado que nem mesmo o mais ligeiro sopro de vento conseguia soltar-se e constituir algum perigo para um navio. Nesta situação, excelente para os homens do mar, a tripulação de Odisseu conseguiu fazer com que quase todos morressem. Acharam que o saco tão bem fechado talvez estivesse cheio de ouro, e queriam de todo jeito saber o que havia ali dentro. Abriram-no, e o resultado foi que todos os ventos lançaram-se furiosamente para fora e provocaram uma tenebrosa tempestade. Por fim. depois de dois dias de perigo, avistaram terra. Melhor fariam, porém, se tivessem ficado no mar tempestuoso, pois aquele era o país dos Lestrigões, um povo de tamanho gigantesco que praticava o canibalismo. Essa raça terrível destruiu todos os navios de Odisseu, com exceção daquele que ele próprio comandava - a embarcação ainda não tinha entrado no porto quando os Lestrigões se lançaram ao ataque.

    Esse fora, até o momento, o pior dos desastres, e foi com o coração em desespero que desembarcaram na próxima ilha que encontraram. Mais uma vez, jamais o teriam feito se soubessem o que os aguardava. Estavam em Ea, o reino de Circe, uma bruxa extremamente bela e perigosíssima. Transformava em animais todos os homens que dela se aproximassem. Deixava-lhes apenas a razão intacta, para que eles soubessem o que tinha acontecido. Atraiu para sua casa o grupo que Odisseu tinha mandado para explorar a terra, e ali transformou-os em porcos. Colocou-os em um chiqueiro e deu-lhes bolotas para comer, o que fizeram, pois agora eram suínos. Por dentro, porém, eram homens conscientes do estado vil em que se encontravam, sob o domínio absoluto da feiticeira.

    Felizmente para Odisseu, um dos homens do grupo teve o cuidado de não entrar na casa. Presenciou de longe os acontecimentos e voltou horrorizado para o navio. A notícia fez com que Odisseu pusesse de lado toda e qualquer noção de perigo. Partiu sozinho - nenhum de seus homens quis acompanhá-lo - para ver se conseguia ajudar de alguma forma seus companheiros. No caminho, foi abordado por Hermes, que se apresentou como um jovem de idade em que a juventude é mais encantadora. Disse a Odisseu que conhecia uma erva capaz de salvá-los de fatais artes mágicas de Circe. Com essa erva, podia experimentar tudo o que a bruxa lhe oferecesse, e fazê-lo sem correr o menor risco. Assim que terminasse de beber da taça que ela lhe oferecesse, ensinou-lhe Hermes, devia ameaçar trespassá-la com sua espada se ela não libertasse os seus homens. Odisseu pegou a erva e, muito agradecido, seguiu em frente. As coisas se passaram de um modo ainda melhor do que Hermes havia predito. Quando Circe já usara em Odisseu a magia que até então sempre fora muito bem-sucedida e, para seu espanto, viu que ele não se transformara em coisa alguma, ficou tão maravilhada com aquele homem capaz de resistir aos seus encantos que se apaixonou por ele imediatamente. Estava disposta a fazer qualquer coisa que lhe pedisse, e no mesmo instante fez com que os companheiros de Odisseu readquirissem a forma humana. Tratou-os com grande cordialidade, e ofereceu-lhes festas tão suntuosas em sua casa que eles acabaram ficando ali por todo um ano, vivendo na mais perfeita felicidade.

    Quando sentiram que chegara a hora de partir, Circe usou todos os seus conhecimentos mágicos para ajudá-los. Descobriu o que precisavam fazer para empreender em segurança a viagem de volta a seu país. O que lhes apresentou como solução era, na verdade, uma terrível proeza a ser realizada: teriam de cruzar o rio Oceano e atracar o navio na praia de Perséfone, onde haveria uma entrada que conduzia ao reino do Hades. Odisseu devia então descer e ir em busca da alma do profeta Tirésias, que havia sido o homem mais sagrado de Tebas, e ele daria ao herói todas as informações necessárias para o regresso à pátria. Só existia uma maneira de fazer com que esse fantasma viesse até ele: matar carneiros e encher um buraco com o sangue dos mesmo. Todos os fantasmas tinham desejo irresistível de beber sangue, e todos viram correndo para as proximidades do buraco; Odisseu, porém, teria que desembainhar a espada e mantê-los à distância até que Tirésias falasse com ele.

    Era terrível demais, e todos choraram ao deixar a ilha de Circe e tomar a direção do Érebo, onde Hades reina junto com a grande Perséfone. De fato fora terrível escavar a trincheira e enchê-la de sangue, e mais ainda quando os espíritos dos mortos acorreram aos montes. Odisseu, porém, não perdeu a coragem. Manteve-os afastados com sua espada enfiada até que viu o fantasma de Tirésias. Permitiu que ele se aproximasse e bebesse daquele sangue negro; em seguida, fez-lhe a pergunta. O clarividente respondeu-lhe prontamente. O maior perigo que os ameaçava, disse-lhes, estava nos maus-tratos que pudessem infligir aos bois do Sol quando chegassem à ilha onde os mesmo viviam. Todos os que os maltratassem estavam irreversivelmente condenados. Eram os mais belos bois do mundo, e o Sol tinha por eles um grande apreço. Fosse como fosse, porém, Odisseu conseguiria voltar para casa, e, ainda que alo o aguardassem novos problemas, no fim ele viria a prevalecer.

    Depois que o profeta acabou de falar, um longo cortejo de mortos aproximou-se para beber o sangue e conversar com Odisseu. Muitos deles haviam sido outrora grandes heróis e belíssimas mulheres, e outros, ainda, eram guerreiros que haviam tombado nos campos de Tróia. Aquiles apareceu, e também Ájax, ainda furioso devido à armadura de Aquiles, que os capitães gregos tinham dado a Odisseu e não a ele. Também vieram muitos outros, todos ansiosos por falar com ele. Por fim, seu número se tornou imenso, e Odisseu começou a sentir-se aterrorizado com aquelas vastas multidões de fantasmas. Tratou de voltar rapidamente para o navio e fazer-se à vela.

    Através de Circe, ficara sabendo que teria de passar pela ilha das Sereias. Eram cantoras maravilhosas, e suas vozes faziam com que os homens esquecessem de tudo o mais; por fim, suas canções levavam-nos a perder a vida. Ficavam cantando na praia, cercadas pelos esqueletos já quase reduzidos a pó daqueles que haviam atraído para a morte certa. Odisseu falou sobre elas aos seus homens, e disse-lhes que a única maneira de atravessar os seus domínios com segurança era tapar os ouvidos com cera. Ele, porém, estava decidido a ouvir-lhes o canto, e propôs à tripulação que o prendesse firmemente ao mastro; assim, por maiores que fossem os seus esforços por soltar-se, não conseguiria fazê-lo. Quando se aproximaram da ilha, todos, exceto Odisseu, estavam surdos ao canto das serias. O herói as ouviu cantar, e, pelo menos para um grego, as palavras eram ainda mais maravilhosas do que a melodia. Diziam que a todos os homens que delas se aproximavam seria concedido o dom do conhecimento, da sabedoria e da elevação espiritual. "Sabemos todas as coisas que ainda vão passar-se na Terra". Era assim que sua canção enchia os ares em encantadoras cadências, e o coração de Odisseu pesava de vontade de ir junta-se a elas.

   As cordas, porém, o seguraram, e o perigo foi deixado para trás. O mar reservava-lhes ainda mais uma provação: a passagem entre Cila e Caribdes. Os Argonautas tinham conseguido fazer essa travessia; Enéias, que pouco tempo antes partira para Itália, também conseguira evitar esse trecho do oceano graças à advertência de um profeta; quanto a Odisseu, é evidente que também conseguiu passar por ali, uma vez que contava com a proteção de Atena. Mesmo assim, foi uma experiência tenebrosa, e seus membros da tripulação perderam ali suas vidas. De qualquer modo, não teriam mesmo vivido por muito mais tempo, pois em sua próxima parada, a Ilha do Sol, os homens agiram com uma inacreditável insensatez. Estavam famintos, e mataram os bois sagrados. Odisseu não estava presente, pois tinha ido sozinho à ilha para fazer suas orações. Desesperou-se ao voltar, mas já era tarde demais - os bois tinham sido assados e comidos. A vingança do Sol foi rápida e fulminante. Assim que partiram da Ilha, um raio reduziu o navio em pedaços, e todos, com exceção de Odisseu, morreram afogados. O herói agarrou-se à quilha e conseguiu enfrentar a tempestade. Ficou à deriva por muitos dias, até ser finalmente lançado na ilha de Calipso, onde foi forçado a ficar por muitos anos. Por fim, iniciou a viagem de regresso a seu país, mas uma tempestade fez com que mais um naufrágio o vitimasse. Só depois de muitos perigos terríveis conseguiu chegar ao país dos Feácios - um homem totalmente desamparado e sem nada de seu.

   A longa história tinha chegado ao fim, mas os que o ouviam continuaram ali sentados, em silêncio e maravilhados com o que acabavam de ouvir. Depois, o rei falou. Assegurou a Odisseu que os seus sofrimentos haviam chegado ao fim; mandá-lo-ia para casa naquele mesmo dia, e cada um dos que tinham estado a ouvir-lhe a história dar-lhe-ia um presente de despedida para que pudesse voltar com alguma riqueza. Todos concordaram com a sugestão. Prepararam o navio, colocaram nele os presentes, e Odisseu embarcou com o coração muito agradecido pela generosa acolhida. Estendeu-se no convés e um doce sono cerrou-lhe os olhos. Quando acordou, estava em terra firme. Os marinheiros já haviam partido, tendo-o antes levado para a praia e empilhado seus pertences a seu lado. Odisseu levantou-se, assustado, e ficou a olhar para a paisagem circundante. Não reconheceu o seu próprio país. Um jovem  aproximou-se dele; parecia um pastor, mas era belo e de boas maneiras como os filhos de reis que têm por hábito guardar rebanhos. Foi a impressão que Odisseu teve, mas, na verdade, tratava-se de Atena disfarçada de pastor. Em resposta ansiosa à pergunta do herói, a deusa lhe disse que se encontrava em Ítaca. Mesmo com a alegria que sentiu ao ouvir dizer que estava finalmente em sua terra, manteve-se cauteloso. Contou a Atena uma longa história, explicando quem era e quais os motivos o haviam levado até ali, mas mentiu do princípio ao fim. Assim que terminou, a deusa sorriu e bateu de leve em suas costas, aparecendo-lhe no mesmo instante em sua verdadeira forma, divinamente alta e bela. "Grande parceiro!", disse-lhe a rir, "Que grande astúcia é necessária para fazer frente a tua esperteza!" Odisseu saudou-a extasiado, mas ela o fez lembrar de que havia ainda muito por fazer, e os dois então se puseram a elaborar um plano de ação. Atena informou-o de tudo quanto se passava em sua casa, e prometeu-lhe que o ajudaria a livrar-se dos pretendentes. No momento, iria transformá-lo em um velho mendigo, de tal modo que pudesse deslocar-se por toda parte sem ser reconhecido. Devia passar aquela noite com Eumeu, se guardador de porcos; era um homem fiel e digno de confiança para além de todos os elogios. Depois de esconderem-se; Atena foi procurar Telêmaco, e Odisseu, que a deusa tinha transformado em um velho e esfarrapado mendigo, foi para a casa do guardador de porcos. Eumeu foi muito hospitaleiro com aquele pobre desconhecido e, depois de servir-lhe uma generosa refeição, indicou o quarto onde pernoitaria e cobriu-o com seu próprio cobertor, quente e aconchegante.

   Enquanto isso, instalado por Atena, Telêmaco despediu-se de Helena e Menelau e embarcou sem mais demora em seu navio, ansiando por chegar o mais depressa possível ao seu país. Planejou - uma vez mais influenciado por Atena - não dirigir-se diretamente a sua casa ao desembarcar, mas procuraria antes o guardador de porcos para informar-se sobre o que havia acontecido em sua ausência. Odisseu estava ajudando a preparar o café da manhã quando o jovem apareceu à porta. Eumeu saudou-o com lágrimas de alegria e pediu-lhe que se sentasse e comesse. Antes de aceitar o convite, porém, Telêmaco mandou o guardador de porcos dizer a Penélope que ele havia chegado. Pai e filho ficaram, então, a sós. Naquele momento, Odisseu percebeu que, um pouco além da porta, Atena fazia-lhe sinais. Foi ao seu encontro, e ela fez com que ele retomasse instantaneamente a sua forma verdadeira, ordenando-lhe que revelasse sua identidade a Telêmaco. O jovem não tinha notado nada de diferente até o momento em que, em vez do velho mendigo em farrapos, entrou um homem de aspecto majestoso. Olhou assustado, achando que estava diante de um deus. "Sou o teu pai", disse-lhe Odisseu, e então abraçaram-se chorando. Mas não havia muito tempo a perder, uma vez que precisavam arquitetar muitos planos. Seguiu-se uma conversa cheia de ansiedade. Odisseu estava decidido a expulsar à força os pretendentes, mas como poderiam dois únicos homens dar conta de toda aquela multidão? Decidiram, finalmente, que na manhã seguinte iriam ambos para casa, Odisseu evidentemente disfarçado, e que Telêmaco esconderia todas as armas, deixando apenas, em algum lugar fácil de encontrar, um número suficiente para dois. Atena apressou-se mais uma vez para ajudá-los: quando Eumeu retornou, encontrou dentro de sua casa o mesmo mendigo que deixara ao sair.

   No dia seguinte, Telêmaco saiu sozinho e pediu aos outros dois que o seguissem algum tempo depois. Chegaram à cidade, foram para o palácio e, depois de vinte anos, finalmente Odisseu voltou a entrar na casa que tanto amava. Assim que entrou, um velho cão que por alo estava deitado ergueu a cabeça e ficou com as orelhas em pé. Era Argos, o cão que havia sido criado por Odisseu antes da partida para Tróia. APesar da longa ausência, reconheceu o antigo dono assim que ele apareceu e abanou a cauda, mas já não tinha forças para arrastar-se em sua direção. Odisseu também o reconheceu, e uma lágrima escorreu-lhe dos olhos. Não ousou aproximar-se do animal para não levantar suspeitas da parte do guardador de porcos, e o cão morreu no instante em que Odisseu se afastou.

   Dentro do salão, deparou-se-lhe então o espetáculo dos pretendentes. Vadiando por alo depois de terem comido, mostraram grande disposição de zombar daquele mendigo miserável que acabara de entrar, e Odisseu ouviu todos os insultos com absoluta paciência. Por fim um deles, um tipo grosseiro e agressivo, irritou-se e deu-lhe um soco. Teve a ousadia de bater em um desconhecido que pedia hospitalidade. Ao saber do fato, Penélope resolveu falar pessoalmente com o homem que havia sido maltratado, mas achou melhor passar primeiro pelo salão onde realizavam-se os banquetes. Queria ver Telêmaco, e também lhe pareceu aconselhável mostrar-se aos pretendentes. Tinha a mesma prudência do filho. Se Odisseu estava morto, o melhor a fazer seria casar-se com o mais rico e generoso daqueles homens. Não devia, portanto, privá-los de toda e qualquer esperança. Além disso, tinha uma idéia que lhe parecia bastante promissora. Assim, desceu para o salão acompanhada por duas aias, com um véu a ocultar-lhe o rosto e tão bela que os pretendentes ficaram trêmulos somente ao vê-la. Todos se levantaram para cumprimentá-la, mas a discreta dama apenas respondia que estava consciente de já ter perdido todos os encantos, tantos e tamanhos tinham sido os seus sofrimentos e preocupações. Era muito sério o objetivo que a fizera ir ao encontro deles para falar-lhes. A esta altura, já se convencera de que o marido nunca mais voltaria. Não achavam, portanto, que já era mais que tempo de passarem a fazer-lhe a corte de um modo apropriado a uma dama de nobre estirpe e de fortuna, cumulando-a de presentes riquíssimos? A sugestão foi prontamente aceita. Todos mandaram os seus pajens buscar as coisas mais ricas que tinham para dar de presente a Penélope: vestes suntuosas, jóias e colares de ouro. As aias levaram tudo para a parte superior da casa, e a recatada esposa de Odisseu retirou-se extremamente satisfeita.

   Em seguida, mandou procurar e trazer a sua presença o estranho que tinha sido maltratado. Falou-lhe com grande delicadeza, e Odisseu contou-lhe que, ao dirigir-se para Tróia, tinha encontrado o seu marido;  a história fez com que ela chorasse tanto que o próprio Odisseu deixou-se comover. Mesmo assim, ainda não deu a reconhecer-se, e seu rosto permanecia firme como o ferro. Aos poucos, Penélope foi retomando o seu papel de anfitriã. Mandou chamar Euricléia, a velha criada que cuidara de Odisseu desde a mais tenra infância, e pediu-lhe que lavasse os pés do desconhecido. Odisseu então preocupou-se, pois trazia em um dos pés uma cicatriz deixada por um javali que caçara nos tempos de sua juventude, e imaginou que a criada poderia reconhecê-la. Foi exatamente o que aconteceu. e Euricléia soltou-lhe o pé, que foi cair na bacia e fez com que a água se espalhasse por toda parte. Odisseu então segurou-lhe a mão e murmurou: "Querida ama, agora sabes de tudo, mas nem uma só palavra a quem quer seja!" Também sussurrando, ela respondeu-lhe que saberia guardar segredo, e Odisseu afastou-se. Havia uma cama preparada para ele no salão de entrada, mas foi impossível dormir, pois não lhe saía  da cabeça o dilema de enfrentar todos aqueles tipos imundos e descarados. Por fim, lembrou-se de que tinha enfrentado uma situação ainda pior na caverna do Ciclope, e concluiu que, com a ajuda de Atena, também ali teria grandes possibilidades de ser bem-sucedido. Assim, dormiu.

   O amanhecer trouxe mais uma vez os pretendentes, que vinham mais insolentes do que nunca. Com total grosseria e desrespeito, sentaram-se para mais um rico festim, sem saber que a deusa e o paciente Odisseu também estavam a preparar-lhes um terrível banquete.

   Sem saber de nada, Penélope favoreceu-lhes os planos. Durante a noite, arquitetara também o seu próprio plano. Assim que amanheceu, dirigiu-se ao seu depósito, onde, entre muitos outros tesouros, estava um grande arco e uma aljava cheia de flechas. Tinham pertencido a Odisseu, e mão alguma jamais os tocara ou utilizara depois da partida do herói. Com essas armas na mão, desceu para o local onde se agrupavam os pretendentes. "Atenção, senhores!", disse, "Aqui está o arco de Odisseu, o homem que se assemelha aos deuses. Tomarei por marido aquele que, dentre vós, for capaz de disparar uma flecha que atravesse doze anéis alinhados". Telêmaco percebeu imediatamente que esse fato inesperado podia reverter a favor dos planos que tinha elaborado com o pai, e, sem vacilar um só instante, deu continuidade à fala da mãe. "Aproximem-se todos os pretendentes!", gritou bem alto. "Nada de recusas ou desistências. Não se afastem! Serei o primeiro a tentar, e com isso todos ficarão sabendo se sou homem o suficiente para usar as armas de meu pai!". Com isso, colocou os anéis em ordem, perfeitamente alinhados. Depois pegou o arco e fez o possível para esticar a corda. Pode ser que tivesse conseguido, mas Odisseu fez-lhe um sinal para que desistisse. Chegou então a vez dos demais: um por um, todos fizeram sua tentativa, mas o arco resistia aos seus maiores esforços, e até mesmo os mais fortes só conseguiam flexioná-lo muito pouco.

   Certo de que ninguém seria capaz de manejar a arma, Odisseu retirou-se da sala e foi para o pátio, onde o guardador de porcos conversava com o homem que cuidava do gado, pessoa igualmente digna de confiança. Precisava que o ajudassem, e então lhes contou quem era. Como prova de que não estava mentindo, mostrou a cicatriz do pé, que ambos tinham visto muitas vezes no passado. Eles a reconheceram, e começaram a chorar de alegria. Odisseu, porém, impôs-lhes rapidamente silêncio. "Nada disso por enquanto!", disse-lhes. "Atentai bem para o que desejo de vós; ti, Eumeu, vê se encontra uma maneira de fazer com que o arco e as flechas cheguem às minhas mãos, e em seguida cuida para que os aposentos das mulheres estejam fechados de modo que ninguém possa entrar. Quanto a ti, boiadeiro, fecha e tranca as portas deste pátio aqui." Acompanhado pelos dois homens, voltou para o salão. Quando entraram, o último dos pretendentes tinha acabado de falhar em sua tentativa de manejar o arco. Odisseu então disse: "Passa-me o arco, pois quero ver se a força que outrora tive ainda não me abandonou". A essas palavras, um furioso clamor de protesto elevou-se do recinto. Todos gritavam que um desconhecido com aparência de mendigo jamais poderia ter a pretensão de tocar o arco. Telêmaco, porém, falou-lhes duramente. A única pessoa ali presente que tinha o direito de determinar quem devia ou não usar o arco era ele, e, como estava de acordo com o pedido do estranho, pediu a Eumeu que entregasse a arma a Odisseu.

   Quando o herói pegou o arco e ficou a examiná-lo por alguns instantes, todos os olhares estavam fixos nele. Depois, com a mesma facilidade com que um músico afina uma corda de seu instrumento, curvou o arco e esticou-o. Ajustou nele uma flecha, fez pontaria e, sem sair do lugar onde se encontrava, lançou a flecha com tanta precisão  que ela passou diretamente por entre os doze anéis. No instante seguinte já estava junto à porta com Telêmaco ao seu lado. "Até que enfim, até que enfim!", gritavam em altos brados, enquanto disparava mais uma flecha que também foi atingir precisamente seu alvo: um dos pretendentes caiu morto, e todos os outros ergueram-se horrorizados. As armas... onde estavam suas armas? Não conseguiam encontrá-las,

e Odisseu não parava de lançar suas flechas em todas as direções. Cada vez que uma flecha sibilava no ar, mais um homem caía morto. Com sua longa espada em mãos, Telêmaco guardava a saída e não permitia que a multidão saísse em debandada pela porta afora ou atacasse Odisseu pelas costas. Juntos, ali, os pretendentes constituíam um alvo facílimo, e enquanto as flechas não terminaram foram sendo mortos sem a menor possibilidade de defesa. De nada lhes valeu as flechas terem acabado, pois Atena viera participar do feito memorável, e fazia com que falhassem todas as tentativas de atingir Odisseu. A lança que o herói agora das cabeças sendo rachadas enchia os ares enquanto o sangue inundava o salão.

   Por fim só restavam dois homens daquele grupo de fanfarrões turbulentos: o sacerdote e o poeta. Ambos imploraram misericórdia, mas o sacerdote, que suplicava agarrado aos joelhos de Odisseu, clamou inutilmente por sua vida. A espada do herói o atravessou de lado a lado, e ele caiu morto em meio a uma oração. O poeta teve mais sorte, pois Odisseu jamais mataria um homem que havia sido ensinado pelos deuses a cantar tão divinamente. Teve a vida poupada para que a beleza de suas palavras continuasse a fazer-se ouvir.

   A batalha chegara ao fim. A velha ama Euricléia e todas as criadas foram chamadas para limpar o salão e colocá-lo novamente em ordem. Cercaram Odisseu, rindo, chorando e dando-lhe as boas-vindas em seu regresso ao lar, e tão emocionadas estavam que ele próprio não resistiu e também sentiu vontade de chorar. Depois foram cuidar de seus afazeres, mas Euricléia subiu as escadas que levavam aos aposentos da ama. Colocou-se junto ao leito e disse: "Acorda, minha querida! Odisseu voltou para cara, e todos os seus pretendentes estão mortos". Irritada, Penélope respondeu-lhe: "Oh, velha louca, eu dormia um sono tão doce. Retira-te de minha presença, e considera-te muito feliz por não te dar o tapa que daria em qualquer outra que se atrevesse a vir acordar-me!" Euricléia, porém, não se deu por vencida: "Mas é verdade, é verdade! Odisseu está aqui, e eu mesma vi sua cicatriz! Não existe a menor dúvida de que se trata dele!" Mesmo não acreditando no que ouvia, Penélope apressou-se a descer para o salão e certificar-se com seus próprios olhos da verdade das palavras de Euricléia.

   Junto à lareira, que o iluminava  por inteiro, estava sentado um homem alto e de aspecto principesco. Ela sentou-se ao lado dele e ficou a examiná-lo em silêncio. Estava confusa. Às vezes, tinha a impressão de reconhecê-lo, mas já no instante seguinte parecia-lhe estar diante de um estranho. Telêmaco então gritou-lhe: "Mãe! Oh, mãe cruel! Que outra mulher se mostraria assim indiferente quando o marido lhe chegasse em casa depois de vinte anos de ausência?" "Meu filho", respondeu-lhe Penélope, "não tenho forças nem mesmo para emocionar-me. Se este homem è realmente Odisseu, eu e ele temos meios de nos reconhecermos." Ao ouvir essas palavras, o herói sorriu e pediu ao filho que não a incomodasse.  "Chegou o momento de nos redescobrirmos", disse.

   Depois o salão, a esta altura na mais perfeita ordem, encheu-se de alegria. O menestrel arrancou melodiosos sons de sua lira, e todos sentiram vontade de dançar. Em meio a um clima de festa, ensaiaram os primeiros passos de dança, homens e mulheres bem vestidas, até que a grande casa começou a ressoar com a batida de pés que marcavam o ritmo das músicas. Depois de tantos anos a vagar perdido, Odisseu estava finalmente em casa outra vez, e isso enchia todos os corações de alegria.

 

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