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Europa
Lá do Olimpo, em uma manhã de primavera, Zeus olhava ociosamente para a terra, quando seus olhos de repente se depararam com um obstáculo encantador. Europa acordara cedo, perturbada, por um sonho. Tratava-se de dois continentes que, sobr forma de duas mulheres, reivindicavam seus direitos sobre ela - a Ásia dizia ser sua mãe, o que transformava Europa em propriedade sua, enquanto a outra, ainda sem nome, declarava que a virgem lhe seria dada por Zeus.
Uma vez, despertada dessa estranha visão que lhe visitara na madrugada, hora em que os mortais costumam ter seus sonhos verdadeiros, Europa resolveu não tentar adormecer de novo; foi, pelo contrário, juntar-se a suas companheiras, todas da mesma idade e de ascendência nobre, e dirigiram-se para os belos prados verdejantes à beira-mar. Era o lugar onde mais gostavam de encontrar-se, fosse para dançar, banhar seus corpos na foz do rio ou colher flores.
Desta vez, sabendo que as flores estavam em pleno desabrochar, todas haviam levado cestos. O de Europa era de ouro, feito por Hefesto, requintamente gravado com figuras que representam a história de Io.
Enquanto Zeus observava as moças colhendo flores, Afrodite e Eros fizeram uma seta atravessar o coração do deus, que no mesmo instante ficou apaixonado por Europa. Ainda que Hera não estivesse por perto, achou melhor se precaver, e apresentou-se diante da jovem transformado em touro. Não se tratava, porém, de um desses touros que se vêem em qualquer estábulo ou a pastar em qualquer campo; era, antes, o mais belo de todos os touros,de pêlos castanho brilhante, com um círculo prateado na testa e chifres semelhantes à lua crescente. Parecia tão dócil e era tão belo que as jovens não se assustaram com sua aparição, mas juntaram-se ao seu redor para acariciá-lo e aspirar o perfume celestial que dele provinha, um aroma ainda mais doce que o das flores do campo. Foi Europa que ele se aproximou e, quando ela o acariciou suavemente, ouviu-se um mugido mais melodioso que o som arrancado da mais doce flauta.
Em seguida, o touro deitou-se a seus pés, parecendo com isso indicar-lhe que subisse para o seu dorso largo. Europa, então, chamou as suas companheiras para que juntas o montassem.
A sorrir, subiu para o seu dorso, mas as outras, por mais rápidas que fossem, não conseguiram fazer o mesmo. De um salto, o touro lançou-se a toda velocidade em direção ao mar, sem adentrá-lo, porém, mas prosseguindo em seu caminho por sobre as águas. As ondas serenavam à sua passagem, e das profundezas surgiu todo um cortejo que passou a acompanhá-lo - os estranhos deuses do mar, as Nereidas cavalgando delfins, Tritões fazendo soar seus búzios e até o poderoso Senhor do Mar, irmão de Zeus.
Europa, aterrorizada tanto pelas criaturas maravilhosas que via quanto pelas águas que se agitavam ao seu redor, firmou-se com uma das mãos em um dos grandes chifres do touro, e com a outra ergueu o vertido purpúreo para que o mesmo não se molhasse. Então os ventos enfunaram as dobras de suas vestes como se fosse as velas de um barco, e com enorme delicadeza foram-na levando por sobre as ondas.
Europa começou a pensar que certamente não se encontrava no dorso de um touro, mas no de um deus; suplicou-lhe, então, que dela tivesse piedade, e não a levasse para alguma terra estranha e ali a deixasse só. Ele respondeu-lhe e demonstrou-lhe que estavam certos os pensamentos dela a seu respeito. Nada havia a temer, lhe disse. Era Zeus, o maior do deuses, e tudo que estava fazendo decorria de seu amor por ela. Estava a conduzi-la para sua ilha de Creta, onde sua mãe o escondera de Cronos pouco depois de seu nascimento, e ali desejava que também ela fosse mão de filhos gloriosos cujos cetros venham a dominar todos os homens da terra.
É claro qye tudo aconteceu exatamente como Zeus predissera. Creta despontou no horizonte; eles foram para terra, e as Estações, as guardiãs das portas do Olimpo, enfeitaram para a festa nupcial. Seus filhos foram homens famosos, não neste mundo como no outro - onde dois deles, Minos e Radamento, tornaram-se juízes dos mortos como recompensa pela justiça com a qual se conduziram na terra.
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