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Eros e Psiquê
Psiquê, que em grego significa alma, é a mais jovem entre as três filhas de um rei. Todas eram muitas mas, a mais jovem, possuía uma beleza excepcional.
Homens de países vizinhos iam fazer homenagens a ela, todos queriam vê-la, admirá-la e venerá-la. Psiquê estava sendo cultuada como se fosse a própria Afrodite encarnada, alguns chegavam a falar que nem a própria Afrodite não superava a beleza da jovem.
Afrodite, vendo que seus templos estavam vazios, que suas cidades favoritas estavam vazias, ficou furiosa e indignada com a jovem, como poderia uma mortal ser mais cultuada que ela? Resolveu se vingar e chamou seu filho Eros, o deus do amor, e ordenou:
"- Castiga, meu filho, aquela audaciosa beleza; assegura à tua mãe uma vingança tão doce quanto foram amargas as injúrias recebidas. Infunde no peito daquela altiva donzela uma paixão por algum ser baixo, indigno, de sorte que ela possa colher uma mortificação tão grande quanto o júbilo e o triunfo de agora."
Eros foi até o quarto de Psiquê, quando estava prestes a acertar a jovem, ela acordou. Eros, mesmo sabendo que ela não podia vê-lo, se assustou, não esperava que ela acordasse, e acabou se ferindo sem querer, caindo de amor por ela.
Os pais de Psiquê estavam vendo a solidão da filha, que apesar de ser extremamente bela, não possuía um pretendente. Para tentar melhorar a situação da filha, procuraram o oráculo de Apolo, que já sabendo da vingança de Afrodite, ordenou:
"- A virgem não se destina a ser esposa de um amante mortal, seu futuro marido a espera no alto de uma montanha. É um monstro a quem nem os deuses nem os homens pode resistir."
Psiquê foi preparada com todas as honras de noiva, mas parecia que todos que a acompanhavam estavam em um cortejo fúnebre. Ouvia-se o choro de seus pais e as lamentações do povo.
Deixada sozinha no penhasco, de pé, tremendo de medo, com os olhos rasos de lágrimas, Zéfiro a levantou acima da terra e a conduziu suavemente até um vale, muito bonito.
Cansada, ela nem reparou no vale, deitou-se na relva, e adormeceu. Ao despertar, viu o lindo bosque, o perfume suave das flores, altas e robustas árvores. Entrou pelo campo e avistou um lindo palácio, uma obra que não parecia ter sido feita por nenhum mortal. Entrou no palácio. Cada coisa que via a deixava deslumbrada. Colunas de ouro sustentavam o teto abobadado e as paredes eram ornadas de baixos-relevos e pinturas de animais selvagens. Não viu ninguém, mas ouviu uma voz:
"- Soberana dama, tudo que vês é teu. Nós, cujas vozes ouves, somos teus servos e obedeceremos às tuas ordens com a maior atenção e diligência. Retira-te, pois, para teu quarto e repousa em teu leito e, quando tiveres descansado, poderás banhar-te. A ceia te espera no aposento adjacente, quando te aprouver ali te assentares."
Tudo o que desejava, ela tinha, mas ainda não havia visto o marido. Ele aparecia apenas nas horas de escuridão e partia antes de amanhecer. Psiquê pediu algumas vezes para vê-lo, mas ele respondia com bons motivos, que de certo modo acalmavam seu coração e Eros pedia para que ela não o traísse, armando alguma coisa para o ver, que isto acabaria com seu casamento.
"- Por que queres me ver? Podes duvidar de meu amor? Tens algum desejo que não foi satisfeito? Se me visses, talvez fosses temer-me, talvez adorar-me, mas a única coisa que peço é que me ames. Prefiro que me ames como igual a que me adores como deus."
Ela estava muito feliz, mas se sentida muito sozinha, tinha apenas a companhia das vozes, mas de nenhuma pessoa. Pediu ao marido que deixasse suas irmãs visitá-la, e ele, quase contra vontade, mas compreendendo os argumentos da esposa, permitiu a visita, mas a alertando que não desse ouvidos a tudo que as irmãs falassem.
Na manhã seguinte chegaram as duas irmãs, trazidas da montanha por Zéfiro. Feliz e excitada, Psiquê esperava por elas. Demorou muito para que conseguissem falar, pois a alegria que sentiam era tão grande que só conseguiam expressar-se através de lágrimas e abraços. Mas quando, por fim, entraram no palácio e as duas irmãs se depararam com aqueles tesouros inigualáveis e deliciaram-se com um magnífico banquete servido ao som de uma música maravilhosa, foram tomadas por uma inveja amarga e por uma curiosidade incurável de saber quem era o senhor de toda aquela magnificência, ou seja, o marido da irmã. Psiquê, porém, cumpriu o prometido, e disse-lhes que se tratava apenas de um jovem que no momento não se encontrava, pois estava participando de uma caçada. As irmãs continuavam a insistir no assunto, percebendo que Psiquê não o vira, e nem sabia muito bem quem era. Começaram a censurar por ocultar-lhe detalhes justamente a elas, que eram suas irmãs. Diziam, sem a menor dúvida, que seu marido não era humano, mas sim a terrível serpente mencionada pelo oráculo, que estava sendo muito amável, mas que tudo indicava que alguma noite ele se viraria contra ela e a devoraria.
Apavorada, Psiquê sentiu medo inundar seu coração. Começou a achar que as irmãs tinham razão, ele tinha algum cruel motivo para não permitir ser visto. As irmãs ajudaram a armar um plano, aquela noite, ela deveria esconder uma faca debaixo do travesseiro e deixar uma lamparina perto de sua cama. Quando o marido estivesse dormindo profundamente, trataria de levantar-se, acender a lamparina e pegar a faca. Em seguida, deveria encher-se de coragem e cravá-la no corpo do ser horripilante que certamente a luz. As irmãs foram embora e Psiquê ficou dilacerada pelas dúvidas e sem saber muito bem o que fazer. Amava-o; ele era o marido a quem tanto queria. Não; era apenas uma horrível serpente e ela o odiava.
Finalmente, quando ele dormia um sono calmo, ela encheu-se de coragem e acendeu a lamparina, foi na ponta dos pés até a cama e, erguendo bem a luz, olhou ansiosa para ver o que ali se encontrava. Diante dela, não havia nenhum monstro, mas apenas a mais doce e mais bela das criaturas, mas uma gota do azeite quente da lamparina caiu sobre o ombro dele, que de imediato despertou. Sem dizer nada, abriu as brancas asas e voou através da janela. Psiquê na tentativa de segui-lo, caiu da janela ao solo. Eros, vendo-a estendida no chão, parou o vôo por um instante e disse:
"- Tola Psiquê, é assim que retribuis meu amor? Depois de haver desobedecido às ordens de minha mãe e te tornado minha esposa, tu me julgavas um monstro e estavas disposta a cortar-me a cabeça? Vai. Volta para junto de tuas irmãs, cujos conselhos parecer preferir aos meus. Não lhe imponho outro castigo, além do de deixar-te pra sempre. O amor não pode conviver com a desconfiança."
Eros saiu voando, o palácio e os jardins desapareceram. Psiquê estava em um campo aberto, perto da cidade em que as irmãs moravam. Procurou-as e contou o que havia acontecido, e as irmãs logo pensaram que agora ele estava livre para escolher uma delas.
Tomada por essa idéia, no dia seguinte, uma das irmãs saiu logo cedo de casa, foi até o penhasco e se atirou, esperando que fosse arrebatada por Zéfiro, mas isso não aconteceu, caiu no precipício e se despedaçou.
Psiquê estava desesperada em busca do marido. Vagava dia e noite, sem descanso, sem alimento. Certo dia a jovem avistou um magnífico templo e achando que fosse a moradia do esposo, entrou.
No templo haviam montões de trigo, instrumentos da ceifa, mas estava tudo muito bagunçado. Psiquê começou a organizar o templo. Achava que nenhum culto deveria ser negligenciado, mas que deveriam cultuar todos os deuses.
Esse era o templo de Deméter, que piedosa olhava Psiquê tão atarefada. Falou para a jovem procurar Afrodite e pedir seu perdão, com modéstia e submissão, que esta talvez devolvesse o marido.
Psiquê obedeceu às ordens de Deméter e foi para o templo de Afrodite. Sabia que seria uma difícil tarefa, que poderia até mesmo levá-la a morte. Chegando no templo, apareceu Afrodite, com a ira estampada em sua face:
"- Tu, a mais ingrata infiel das servas, lembraste, afinal que tens, realmente, uma senhora? Ou talvez vieste para ver teu marido enfermo, ainda guardando o leito em conseqüência da ferida que lhe causou a amada esposa? És tão pouco favorecida e tão desagradável, que o único meio pelo qual pode merecer teu amante é a prova da indústria e diligência. Farei uma experiência de tua capacidade como dona de casa."
Ordenou que Psiquê fosse ao celeiro do seu templo, onde havia grande quantidade de trigo, aveia, milhete, ervilhaças, feijões e lentilhas. Era tarefa de Psiquê separar e organizar tudo antes de anoitecer.
Desesperada com a imensa tarefa, Psiquê não conseguiu nem se mover. Seu marido, Eros, incitou a formiguinha a ter pena dela. A chefe do formigueiro ordenou que todas as formigas ajudassem a separar os cereais, e assim elas fizeram, separaram grão a grão toda aquela imensidão.
Começando a anoitecer, Afrodite saiu do banquete dos deuses, e foi ver o trabalho de Psiquê. Afrodite logo percebeu que aquilo não era obra de Psiquê, mas, de qualquer forma, ela havia cumprido a tarefa. A deusa deu um pedaço de pão preto para Psiquê e partiu.
Na manhã seguinte, Afrodite mandou chamar Psiquê e deu outra ordem:
"- Olha para aquele bosque que se estende à margem do rio. Ali encontrarás carneiros pastando sem um pastor, cobertos de lã brilhante como ouro. Vai buscar-me uma amostra daquela lã preciosa colhida de cada um dos velocinos."
Psiquê dirigiu-se à margem do rio, disposta a cumprir sua tarefa. Quando se preparava para atravessar, o deus rio, tomado de piedade, ensinou à Psiquê que de manhã, os carneiros estavam agitados, tomados de uma fúria indomável para destruir os mortais, e que as águas estavam muito agitadas. Disse para a jovem esperar até o meio-dia, quando os carneiros se deitavam debaixo de uma árvore para descansar, e que nesta árvore, ficaria presa a lã deles, que ela poderia pegar sem se aproximar muito. A essa hora, o espírito do rio estava sereno, ela poderia atravessá-lo sem problemas.
Seguindo as dicas do rio, Psiquê conseguiu cumprir sua tarefa, mas Afrodite sabia que não tinha sido por esforço próprio, que recebera ajuda, então resolveu dar-lhe outra tarefa. Deu uma caixa para a jovem ir ao Hades, entregá-la à Perséfone, e dizer:
"- Minha senhora Afrodite quer que lhe mandes um pouco da tua beleza, pois, tratando de seu filho enfermo, ela perdeu alguma da sua própria."
Psiquê sabia que estava indo de encontro com sua morte. Nenhum mortal pode sair do Hades. Mas, continuou sua tarefa. Dirigiu-se ao alto da torre, para de lá se jogar, era a maneira mais rápida de se chegar ao hades.Uma voz vinda da torre perguntou porque a jovem estava determinar seus dias de maneira tão horrível. Psiquê explicou a torre, e esta lhe ensinou o que deveria atravessar determinada gruta para chegar ao reino de Hades, como evitar os perigos, passar por Cérbero e convencer Caronte a levá-la e fazê-la de volta, e ainda avisou para que Psiquê não abrisse a caixa que Perséfone lhe daria.
Entusiasmada Psiquê seguiu todas as recomendações, e como era esperado, foi acolhida no palácio de Perséfone, negando-se a provar o banquete que foi oferecido, pois sabia que se comesse, estaria presa lá. Psiquê deu a caixa à Perséfone, explicando o que desejava, e sem demora a caixa foi devolvida, fechada e repleta de coisas preciosas. Voltou pelo mesmo caminho e conseguiu sair do Hades.
Quase chegando ao encontro com Afrodite, a jovem foi tomada por uma curiosidade incontrolável, pensou que seria muito burra se não pegasse um pouco do tesouro que carregava para si, e com isso abriu a caixa. Não havia beleza, mas um sono eterno que se apossou dela e fê-la cair no chão, como um cadáver.
Eros já estava recuperado, fugiu pela janela de seu quarto a procura de Psiquê. Viu a amada esposa no chão, retirou o sono dela, guardou-o na caixa novamente e a acordou com um ligeiro toque de sua flecha e Eros lhe disse:
"- Mais uma vez quase morreste, devido à mesma curiosidade. Mas agora executa a tarefa que lhe foi imposta por minha mãe, e cuidarei do resto."
Ele fugiu rapidamente, foi para o Olimpo e apresentou-se diante de Zeus, com sua súplica. Zeus ouviu-o com benevolência e advogou com tanto empenho a causa dos amantes que conseguiu a concordância de Afrodite. Mandou, então, Hermes levar Psiquê à assembléia celestial, e, quando ela chegou, entregou-lhe uma taça de ambrosia, dizendo:
"- Bebe isto, Psiquê, e sê imortal. Eros não romperá jamais o laço que atou, mas essas núpcias serão perpétuas."
Assim os amantes ficaram unidos, e logo tiveram uma filha chamada Volúpia.
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