Calisto

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Calisto

   Calisto era filha de Licáon, um rei da Arcádia que fora transformado em lobo devido à sua maldade. Tinha servido carne humana a Zeus, quando este fora seu hóspede. O castigo fora merecido; mas a filha, que nada fizera de errado, sofreu tão terrivelmente quanto o pai. Um dia, quando participava do séquito que acompanhava Ártemis em uma caçada, foi vista por Zeus, e o Senhor do Olimpo apaixonou-se por ela. Hera, vendo o interesse de seu marido, logo disse:

   "- Acabarei com aquela beleza que cativou meu marido" - disse a deusa.

   Calisto caiu apoiada nas mãos e nos joelhos. Tentou estender os braços numa súplica: eles já estavam começando a se cobrir de pêlo negro. As mãos arredondaram-se, armaram-se de garras aduncas e tornaram-se patas; a boca, cuja beleza Zeus costumava exaltar, transformou-se num horrível par de maxilas; a voz que se não fosse mudada inspirada piedade aos corações tornou-se um rugido, próprio a inspirar o terror. Contudo, sua antiga disposição permaneceu e, continuando a gemer, Calisto deplorou seu destino e mantinha-se tão ereta quanto podia, erguendo as patas para implorar mercê. Ah! Quantas vezes, temerosa de ficar nos bosques sozinha a noite inteira, vagueava pelas vizinhanças de sua antiga morada! Quantas vezes, amedrontada pelos cães, ela, até então caçadora, fugira aterrorizada, dos caçadores! Quantas vezes fugia das feras, esquecendo-se de que, agora, não passava ela mesma de uma fera! E, embora sendo ursa, tinha medo dos ursos.

   Um dia, um jovem a viu, quando estava caçando. Ela também o viu e nele reconheceu o próprio filho, agora homem. Parou, tendo vontade de abraçá-lo. Ao se aproximar, o jovem, assustado, ergueu a lança de caça e ia trespassá-la, quando Zeus, vendo o que se passava, impediu a consumação do crime e afastou os dois, colocando-os no céu, transformados nas constelações da Ursa Maior e da Ursa Menor.

   Hera enfureceu-se vendo sua rival merecer tal honra, procurou Tétis e Oceano, as antigas potências do mar e, em resposta às suas perguntas, assim descreveu o motivo de sua vinda:

   "- Perguntais-me por que eu, rainha dos deuses, deixei as planícies celestiais e vim em busca destas profundidades? Sabei que estou suplantada no céu: meu lugar é dado a outra. Dificilmente acreditareis em mim; mas olhai quando a noite escurecer o mundo, e vereis os dois de quem tenho tanta razão de queixa exaltados no céu, naquela parte em que o círculo é menor, nas vizinhanças do pólo. Por que iria alguém, de agora em diante, tremer à idéia de ofender Hera, quanto tais recompensas são as conseqüências do meu desprazer? Vede o que consegui fazer! Impedi-a de usar a forma humana - ela é colocada entre as estrelas! Taç é o resultado do meu castigo, tal a extensão de meu poder! Seria melhor que tivesse recuperado a forma humana, como permiti que Io recuperasse. Talvez Zeus pretenda desposá-la, e deixar-me de lado. Mas vós, meus pais de adoção, se estais a meu lado e encarais com desgosto esse indigno tratamento que me foi imposto, mostrai-mo, peço-vos, impedindo esse casal indigno de penetrar em vossas águas!"

   As potências do oceano concordaram e, conseqüentemente, as duas constelações da Ursa Maior e da Ursa Menor movem-se em círculo no céu, porém, jamais descem, como as outras estrelas, por trás do oceano.

 

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