Apolo e Dafne

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Apolo e Dafne

   Apolo quando viu Eros brincando com seu poderoso arco e suas flechas, disse-lhe:


   "Que tens a fazer com armas mortíferas, menino insolente? Deixe-as para as mãos de quem delas sejam dignos. Vê a vitória que com elas alcancei, contra a vasta serpente que estendia o corpo venenoso por grande extensão da planície! Contenta-te com tua tocha, criança, e atiça tua chama, como costumas dizer, mas não te atrevas a intrometer-se com minhas armas.""

    O filho de Afrodite, ouvindo as palavras do deus, retrucou:


   "Tuas setas podem ferir todas as outras coisas, e isso concordo. Mas não esqueça que as minhas também podem ferir-te".

   
Assim dizendo, pôs-se de pé numa rocha do Parnaso e atirou da aljava duas setas diferentes, uma feita para atrair o amor, feita de ouro com ponta aguçada; outra para afastá-lo, feita de chumbo e ponta rombuda. A segunda seta atingiu Dafne, filha do deus-rio Peneu; mas a primeira flecha já havia atingido Apolo, que foi tomado de amor pela jovem.

   Apolo começou a perseguir Dafne, não entendia como ela poderia não o querer, afinal, era um deus, muito bonito e cheio de coragem.

    Porém Dafne, ao sentir a aproximação do deus, pôs-se a correr como o vento, e nem mesmo o deus conseguia alcança-la. Apolo estava começando a ficar desesperado e gritava para a ninfa:

    "Pára, filha de Peneu! Não sou inimigo. Não fujas de mim, como a ovelha foge do lobo, ou a pomba do milhafre. É por amor que te persigo. Sofro de medo que, por minha culpa, caias e te machuques nestas pedras. Não corras tão depressa, peço-te, e correrei também mais devagar. Não sou um homem rude, um campônio boçal. Zeus é meu pai, sou senhor de Delfos e Tenedos e conheço todas as coisas, presentes e futuras. Sou o deus do canto e da lira. Minhas setas voam certeiras para o alvo. Mas, ah!, uma seta mais fatal que as minhas atravessou-me o coração! Sou o deus da medicina e conheço a virtude de toas as plantas medicinais. Ah! Sofro de um enfermidade que bálsamo algum pode curar!"
   

   A ninfa continuou em sua fuga. Nem estava ouvindo o que o deus tinha para lhe falar. A cada movimento, a cada balanço de seus cabelo e suas vestes, Apolo sentia-se mais encantado com Dafne, e passou a correr ainda mais rápido. A donzela sentia que o deus se aproximara muito e que dificilmente conseguiria escapar.

    As forças da jovem começavam a faltar e desesperada rogou ao seu pai, o rio Peneu, que a ajudasse:

   "Ajuda-me, Peneu! Abre a terra para envolver-me, ou muda minhas formas, que me têm sido tão fatais."

   Assim, um torpor invadiu os membros da linda ninfa, e toda a sua pele começou a transformar-se numa leve casca, e ela não mais conseguia correr. Seus cabelos se tornaram verdes folhas, seus braços mudaram-se em galhos e os pé cravaram-se no solo, como raízes; seu rosto tornou-se o cimo do arbusto.

    Apolo vendo a transformação, e sentindo-se impotente, abraçou-se aos ramos da árvore e beijou ardentemente sua madeira.

   "Já que não podes ser minha esposa, serás minha planta favorita. Usarei tuas folhas como coroa; com elas enfeitarei minha lira e minha aljava. E, tão eternamente jovem quanto eu próprio, também hás de ser sempre verde e tuas folhas não envelhecerão".


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